Efeito BYD: como Brasil virou ‘laboratório’ de empresas chinesas
Instalação da fábrica em Camaçari simboliza o avanço das montadoras chinesas no país, impulsionado pelo mercado de carros elétricos e por novos investimentos industriais.
A expansão da BYD no Brasil transformou a Bahia em um dos principais símbolos da presença chinesa na indústria automotiva nacional. Com uma fábrica instalada em Camaçari, na Região Metropolitana de Salvador, a montadora integra um movimento de empresas asiáticas que buscam ampliar sua participação no mercado brasileiro de veículos elétricos e híbridos.
A unidade foi inaugurada em outubro de 2025, no antigo complexo industrial da Ford, que encerrou suas atividades na Bahia em 2021. Em menos de um ano de operação, a fábrica já havia montado mais de 100 mil veículos utilizando conjuntos importados. A produção com etapas industriais realizadas no Brasil estava prevista para avançar até o fim de 2026.
Segundo dados divulgados pela empresa à reportagem da BBC News Brasil, o complexo contava com 7.618 funcionários diretos, dos quais 457 eram estrangeiros, a maioria chineses.
Por que o Brasil atrai empresas chinesas?
O mercado consumidor brasileiro, a disponibilidade de matérias-primas utilizadas na fabricação de baterias, a oferta de energia renovável e a mão de obra qualificada estão entre os fatores que tornam o país estratégico para os investimentos chineses.
Além da BYD, outras fabricantes também ampliaram sua presença no território nacional, como a GWM e a Geely. O movimento acompanha a transformação da indústria automotiva mundial, com a crescente procura por veículos elétricos e híbridos.
De acordo com Rogélio Golfarb, ex-executivo da Ford e ex-presidente da Associação Nacional dos Fabricantes de Veículos Automotores (Anfavea), o Brasil se tornou um importante campo de expansão para essas marcas. A competitividade tecnológica, a produção em larga escala e o controle de diferentes etapas da fabricação ajudam as empresas chinesas a oferecer veículos equipados e a disputar espaço com montadoras tradicionais.
A concorrência também influencia os preços. Levantamento da consultoria Bright Consulting citado na reportagem apontou que o valor efetivamente pago por veículos leves novos caiu 3,5% até junho de 2026, chegando a R$ 152,1 mil.
Investimentos também trazem desafios
Apesar das oportunidades econômicas, a expansão industrial exige atenção às condições de trabalho e às relações entre empresas, funcionários e sindicatos.
No fim de 2024, 163 trabalhadores chineses foram resgatados de condições análogas à escravidão durante as obras do complexo da BYD. Em dezembro de 2025, empreiteiras terceirizadas firmaram um acordo com o Ministério Público do Trabalho para pagar R$ 40 milhões relacionados ao caso. Conforme informado pela empresa à BBC, o acordo encerrou o processo sem julgamento de mérito ou condenação judicial.
Também houve denúncias sindicais de assédio moral e sexual na fábrica. O procedimento de investigação do Ministério Público do Trabalho foi arquivado por falta de provas. A BYD declarou que não tolera assédio ou discriminação e que mantém canais confidenciais para receber denúncias.
Uma relação econômica em expansão
O avanço das empresas chinesas vai além do setor automotivo. A presença de trabalhadores estrangeiros, os investimentos industriais e o interesse pelo idioma português refletem a aproximação econômica e cultural entre os dois países.
A reportagem também esclarece que a alegação de uma suposta “invasão chinesa” na Bahia, com a chegada de 10 mil trabalhadores para a fábrica da BYD, era falsa.
O desafio brasileiro será aproveitar os investimentos para ampliar a geração de empregos, fortalecer a indústria nacional e desenvolver tecnologia própria, evitando que o país fique restrito à montagem de produtos e à importação de componentes.
